TETO DE VIDRO
Eu olhei pra cima e respirei profundamente. Tem dias que pra acalmar os fantasmas (ou demônios, como preferir) que insistem em falar, só um respiro profundo resolve.
E eu me entrego a essa inspiração lenta. Olho pra cima e vejo o céu sob o vidro do Uber. Quando volto em mim, algo me diz que tem chances de tudo ficar bem. E se não ficar é muito tarde pra tentar elaborar demais.
Só segue o fluxo.
Se você me lê costumeiramente sabe que já tem algumas edições que digo que estou pra me mudar. E me mudei.
Acho engraçado o processo de mudança em si. Eu já percorri ele diversas vezes. Minha família nunca teve uma casa fixa e então era comum migrarmos de um lado para o outro. Já adulta, morei em umas quinze casas entre Rio e São Paulo até achar a última onde fiquei cinco anos.





Na verdade, nem planejava me mudar tão cedo. Estava bem. Mas as coisas mudaram e a oportunidade apareceu. No fim, no último dia (aquele da vistoria) recebi um abraço da administradora. Nós duas - e muitas outras pessoas que conheci devido ao apartamento - compartilhamos um sentimento de incredulidade por uma inquilina que consegue tirar 10/10 no quesito odiada.
Como alguém pode atrair tanta energia ruim pra si de forma tão gratuita?
Não acho que só pessoas boas são recompensadas no mundo. Sabemos que não é verdade isso. Quem é legal também se fode. Mas lá dentro, nas entranhas mesmo, quão seco deve ser o âmago de alguém que não se importa em destratar, maltratar e agir como se todo mundo lhe devesse algo.
Pouquíssimas pessoas nos devem algo. De verdade.
Agora na casa nova vivo dias mais tranquilos. Vejo meu apartamento como casa. É terapêutico trocar a água das flores, cozinhar sem pressa, colocar as coisas no lugar. Aguardar visita, sonhar com o futuro.
Tem dias que encerrar capítulos é tudo que a gente precisa.


